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Pontos-chave do consenso sobre diagnóstico e manejo das infecções do trato urinário e da bacteriúria subclínica em cães e gatos

Publicado em 19 de junho, 2026
Pontos-chave do consenso sobre diagnóstico e manejo das infecções do trato urinário e da bacteriúria subclínica em cães e gatos

Introdução

A Infecção do trato urinário (ITU) é uma apresentação clínica comum em pequenos animais e consiste em uma das principais razões para a prescrição de antimicrobianos. As recomendações são baseadas em dados disponíveis da medicina veterinária e humana, aliados à opinião de especialistas, considerando princípios de doenças infecciosas, terapia antimicrobiana, risco de resistência e bases farmacológicas.

Cistite bacteriana

A cistite bacteriana é definida como uma inflamação da bexiga urinária causada pela colonização bacteriana do trato urinário inferior, geralmente acompanhada de sinais clínicos urinários. Em cães, a ocorrência é relativamente comum, principalmente em fêmeas, enquanto em gatos jovens e adultos a doença bacteriana urinária é menos frequente, sendo mais observada em pacientes geriátricos ou com comorbidades. As manifestações clínicas comuns são: hematúria, polaciúria, disúria e, em pacientes felinos, é comum a periúria acompanhada de alterações comportamentais (figura 1).

As diretrizes da International Society for Companion Animal Infectious Diseases (ISCAID) classificam a ITU da seguinte forma:

  • Cistite Bacteriana Esporádica: episódios isolados e infrequentes.
  • Cistite Bacteriana Recorrente: três ou mais episódios em 12 meses.
  • Complicada: associadas a alterações anatômicas, metabólicas ou funcionais.
  • Pielonefrite: acometimento do trato urinário superior.
  • Prostatite Bacteriana: infecção prostática associada.
  • Bacteriúria Subclínica: sem qualquer sinal clínico urinário associado.

Cistite bacteriana esporádica

É uma infecção esporádica da bexiga com sinais clínicos compatíveis em animais com menos de 3 episódios nos últimos 12 meses. Apresentação comum em cães machos inteiros, de ocorrência infrequente. A presença de prostatite bacteriana deve ser considerada em machos inteiros com sinais do trato urinário inferior. Nos gatos é rara, sendo a Cistite Idiopática Felina (CIF) a forma comum de afecção do trato urinário inferior nesta espécie.

O diagnóstico baseia-se na presença de sinais do trato urinário inferior, idealmente com evidências de cistite bacteriana (hematúria, piúria, bacteriúria citológica) e resultados de cultura bacterianas por meio de urinálise e urocultura (figura 2). É importante lembrar que a presença isolada de bactérias ou leucócitos não confirma infecção ativa na ausência de manifestações clínicas compatíveis.

O tratamento consiste em considerar o uso de analgésicos e anti-inflamatórios e os antimicrobianos podem ser adicionados por 3 a 4 dias se houver persistência de manifestações clínicas ou piora do quadro clínico. O uso empírico de antibióticos se faz por meio da escolha do uso de amoxicilina (11–15 mg/kg VO a cada 8 ou12h por 3-5 dias).

Potenciais comorbidades devem ser consideradas, especialmente em animais jovens e idosos. Embora testes diagnósticos extensivos possam não ser indicados para um único episódio de cistite esporádica, é importante enetnder por que a infecção se instalou (figura 3).

 

Quando houver ausência de resposta clínica em até 48h há necessidade de investigação adicional, quando a cultura inicial indicar resistência ao antimicrobiano empírico escolhido, o medicamento deve ser trocado, a menos que haja boa resposta terapêutica.

Cistite bacteriana recorrente

A cistite bacteriana recorrente é considerada quando há diagnóstico de três ou mais episódios de cistite bacteriana clínica nos últimos 12 meses, ou dois ou mais episódios nos últimos 6 meses. Pode resultar de infecção recidivante, persistente ou reinfecção. Neste caso a avaliação de condições associadas e comorbidades é obrigatória, assim como o uso de cultura aeróbia e antibiograma para escolha terapêutica.

Se o patógeno isolado for diferente de organismos anteriores, reinfecção é provável, exames de imagem simples ou contrastados devem ser utilizados para melhor elucidação diagnóstica. A duração do tratamento segue recomendação abaixo:

  • Reinfecção: cursos de curta duração (3–5 dias).
  • Infecções persistentes/recidivantes: curso prolongado (7–14 dias) podem ser razoáveis.

 

Pielonefrite e infecção do trato urinário superior

A pielonefrite é uma infecção do parênquima renal que pode ocorrer por infecção ascendente ou bacteremia, sendo Enterobacteriaceae responsável pela maioria das infecções. Ao contrário da cistite bacteriana, onde a morbidade do paciente é relativamente baixa, a pielonefrite pode resultar em lesão renal grave e rápida.

Os quadros de infecção renal geralmente estão associados a sinais clínicos sistêmicos como febre, letargia, poliúria e polidipsia e dor renal á palpação. Dentre as alterações encontradas nos exames laboratoriais azotemia e neutrofilia podem ser indícios sugestivos de afecção do trato urinário superior. A dilatação da pelve renal é um achado comum no exame ultrassonográfico, os exames de sensibilidade (urocultura) devem ser avaliados. A duração média de tratamento é de 4 a 6 semanas e a escolha do antimicrobiano é de acordo com o resultado da cultura. Entre 1-2 semanas pós término do tratamento, o paciente precisa ser reavaliado em relação aos testes de sensibilidade.

 

Prostatite bacteriana

A prostatite bacteriana é incomum quando há alta prevalência de castração na população canina. Vários microrganismos podem estar envolvidos, incluindo E. coli, Klebsiella, Pseudomonas, Streptococcus e Staphylococcus. A barreira prostática pode limitar a penetração de antimicrobianos nos tecidos, particularmente na prostatite crônica. Dentre os fármacos com melhor sensibilidade nos casos de prostatite destacam-se a classe das Fluoroquinolonas, sendo o tratamento indicado por 4 a 6 semanas.

Bacteriúria subclínica

É definida como a presença de bactérias na urina determinada por cultura bacteriana positiva de amostra de urina, na ausência de evidência clínica de doença infecciosa do trato urinário, ou seja, quando o paciente não apresenta manifestações clínicas de afecção do trato urinário inferior. A taxa de bacteriúria varia entre as espécies sendo nos gatos saudáveis entre 1-13% e nos cães 2-12%. Em pacientes de alto risco (comorbidades associadas) há uma variação de 15-74%, embora haja maior prevalência, não há nenhuma evidência de associação entre bacteriúria subclínica e risco de desenvolvimento de cistite ou outras complicações em cães ou gatos.

A utilização de cultura só é indicada quando:

  • Há suspeita de pielonefrite
  • Suspeita de bactérias oriundas da vesícula urinária serem fonte de bacteremia/septicemia
  • Pacientes que serão submetidos a procedimento cirúrgico envolvendo o trato urinário
  • Cães com suspeita de urolitíase por estruvita

O tratamento raramente é indicado, mesmo quando ocorre isolamento de uma espécie bacteriana multirresistente. A decisão terapêutica não sustenta tratar bacteriúria subclínica, os genes de resistência antimicrobiana não são fatores de virulência.

Considerações finais

A compreensão adequada das infecções bacterianas do trato urinário em cães e gatos evoluiu significativamente. O consenso reforça que o diagnóstico de cistite bacteriana não deve ser baseado exclusivamente em alterações laboratoriais, mas sim na associação entre sinais clínicos, urinálise e cultura bacteriana quantitativa. Essa abordagem reduz diagnósticos equivocados e evita tratamentos desnecessários. É importante preservar a eficácia dos antimicrobianos disponíveis e promover maior segurança terapêutica aos pacientes.

Portanto, o manejo das doenças urinárias bacterianas em cães e gatos deve ser realizado de forma criteriosa, individualizada e baseada em evidências científicas atualizadas, permitindo diagnósticos mais precisos, tratamentos mais eficazes e redução dos impactos relacionados à resistência antimicrobiana na medicina veterinária.

Referências Bibliográficas

  • TAYLOR, S. et al. 2025 iCatCare consensus guidelines on the diagnosis and management of lower urinary tract diseases in cats. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2025.

  • WEESE, J. S.; BLONDEAU, J.; BOOTHE, D. et al. International Society for Companion Animal Infectious Diseases (ISCAID) guidelines for the diagnosis and management of bacterial urinary tract infections in dogs and cats. The Veterinary Journal, London, v. 247, p. 8–25, 2019.

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