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Obesidade e comorbidades em cães

Publicado em 26 de junho, 2026

Obesidade em cães

A obesidade em cães é definida como o acúmulo excessivo de gordura corporal, geralmente superior a 20% do peso ideal, resultando em prejuízos à saúde e à longevidade do animal. Trata-se de uma condição multifatorial e de alta prevalência na clínica veterinária de pequenos animais, sendo considerada atualmente a principal doença metabólica que acomete a população canina. Sua gênese está diretamente relacionada ao balanço energético positivo, ou seja, quando a ingestão calórica excede o gasto energético ao longo do tempo, acumulando-se sob a forma de tecido adiposo.

Diversos fatores contribuem para o desenvolvimento da obesidade. Entre eles, destacam-se os determinantes genéticos, que podem influenciar tanto a saciedade quanto o gasto energético basal, predispondo determinados indivíduos ao ganho de peso. Estas características genéticas específicas atuam em mecanismos neuroendócrinos que exercem papel central na regulação do apetite e do metabolismo, sendo frequentemente alterados em animais obesos. Um exemplo importante desta condição é a deleção, observada em cães labradores, do gene da POMC (proopiomelanocortina), que daria origem ao b-MSH (hormônio estimulador de melanócitos) e b-endorfinas, ambos peptídeos sacietogênicos e promotores do gasto metabólico.

Outro fator relevante é a gonadectomia, que promove alterações hormonais importantes: a redução dos estrogênios está associada ao aumento do apetite e diminuição do metabolismo, enquanto a queda dos andrógenos pode reduzir a atividade física e o gasto energético, favorecendo o acúmulo de gordura.

A influência do ambiente e do comportamento humano também não pode ser negligenciada. A chamada “pressão social” exercida pelos proprietários — frequentemente associada à oferta excessiva de alimento, petiscos calóricos e à associação do alimento com afetividade — desempenha papel crucial na gênese da obesidade. Esse aspecto comportamental é particularmente relevante na prática clínica, pois muitas vezes representa o principal fator perpetuador da condição.

Em termos epidemiológicos, a obesidade apresenta alta incidência, especialmente em animais adultos e de meia-idade, com maior prevalência em indivíduos castrados. Em um recente amplo levantamento (4,9 milhões de prontuários clínicos americanos analisados), constatou-se sobrepeso em 50,1% e obesidade em 12,6% dos cães maduros. No Brasil, um estudo incluindo uma população de 255 cães, revelou que 40,1% dos animais estavam com sobrepeso ou obesos.  Estudos locais, em clínicas veterinárias especializadas de São Paulo, demonstram que a obesidade figura entre as doenças mais frequentes em cães atendidos, aparecendo com relevância junto outras endocrinopatias, como diabetes mellitus, hipotireoidismo e alterações da adrenal (Quadro 1)

 

 

Quadro 1: Prevalência das principais doenças endócrinas e metabólicas observadas em uma clínica veterinária especializada de São Paulo (CVAL/SP, n=368)

 

DOENÇA n %
Síndrome de Cushing 100 27
Incidentalomas adrenais 89 24
Obesidade 82 22
Diabetes mellitus 55 15
Hipotiroidismo 42 11
Hiperlipidemia Primária 21 6
Hipoadrenocorticismo 14 4

CVAL: Consultórios Veterinários Alto da Lapa

 

 

Diagnóstico da obesidade

O diagnóstico da obesidade baseia-se principalmente na avaliação clínica, onde o método mais amplamente utilizado é a avaliação do escore de condição corporal (ECC), também conhecido como body condition score (BCS). Esse sistema avalia a quantidade de gordura corporal com base em critérios como a palpação das costelas, a presença de cintura abdominal e o grau de deposição de gordura em regiões específicas do corpo. A escala mais comum varia de 1 a 9, sendo que valores entre 4 e 5 indicam condição corporal ideal, enquanto escores entre 6 e 7 correspondem a sobrepeso e valores entre 8 e 9 caracterizam obesidade. Métodos mais precisos, como a absorciometria por dupla emissão de raios-X (DEXA), e o da administração de deutério, podem ser utilizados em contextos de pesquisa ou avaliação mais detalhada da composição corporal, distinguindo a representação e a distribuição da massa magra e da massa adiposa na composição corpórea. A identificação precoce da obesidade, inclusive em estágios pré-clínicos, é fundamental para evitar a progressão e o desenvolvimento de comorbidades.

Consequências da obesidade

As consequências clínicas da obesidade são amplas e impactam diversos sistemas orgânicos. Entre os principais efeitos mórbidos, destacam-se as artropatias, a resistência à insulina, as dislipidemias, doenças cardiovasculares, disfunções respiratórias e o desenvolvimento de esteatose hepática e colangiopatias. Além disso, a obesidade está associada a alterações importantes na microbiota intestinal (disbiose), caracterizadas pelo aumento de espécies pró-inflamatórias e maior permeabilidade intestinal, o que contribui mais ainda para um estado inflamatório crônico de baixo grau. Esse estado inflamatório crônico, característica fundamental da obesidade, é mediado por alterações nas chamadas adipocinas e marcadores humorais, incluindo redução da adiponectina e aumento de leptina, TNF-alfa, resistina e citocinas inflamatórias como IL-1 e IL-6 (Figura 1).

Obesidade clínica e pré-clínica

Recentemente, Alex German (UK), propôs, a exemplo do modelo em medicina humana,  que a obesidade em cães pode ser entendida como um contínuo entre dois estágios: a obesidade pré-clínica, na qual já há excesso de gordura corporal, porém sem manifestações clínicas evidentes, embora alterações metabólicas iniciais já possam estar presentes, e a obesidade clínica, caracterizada pela presença de repercussões funcionais e comorbidades associadas, como osteoartrite, intolerância ao exercício e distúrbios metabólicos. Essa distinção reforça que a obesidade não é apenas um estado corporal, mas uma condição progressiva, em que o animal pode evoluir de um estágio de risco para uma doença estabelecida, destacando a importância da intervenção precoce.

Tratamento da obesidade em cães

O tratamento da obesidade deve ser multidimensional e individualizado, envolvendo principalmente mudanças no estilo de vida. A orientação ao proprietário é um dos pilares fundamentais, incluindo a educação sobre a importância da restrição alimentar, o controle rigoroso de petiscos (idealmente inferiores a 10% da ingestão calórica diária) e a separação entre alimentação humana e animal.

A restrição calórica controlada é a base do manejo nutricional. O planejamento dietético envolve a definição do peso meta, o cálculo das necessidades energéticas para perda de peso (NEPP) e a escolha de uma dieta adequada. A fórmula clássica para estimativa da necessidade energética para perda de peso é: NEPP (kcal) = 70 x (peso meta)0,75 . Dietas específicas para redução de peso devem apresentar alto teor de fibras, baixo teor de gordura e densidade energética reduzida. A inclusão de componentes como L-carnitina, ácidos graxos ômega-3 e fibras fermentáveis pode auxiliar no processo de emagrecimento e na modulação metabólica. Estratégias como o “mix feeding” (combinação de alimento seco e úmido) podem ser utilizadas para colaborar na saciedade, por aumentar o volume oferecido, e a adesão ao tratamento.

A atividade física regular é outro componente essencial do tratamento, devendo ser adaptada à raça, idade e condição clínica do animal. Recomenda-se, de forma geral, entre 20 e 120 minutos de exercício diário, dependendo do porte e nível de atividade do cão. A prática regular de atividade física contribui não apenas para o aumento do gasto energético, mas também para a melhora da sensibilidade à insulina e do perfil metabólico, além da atenuação do estado inflamatório.

Em alguns casos, o uso de fármacos pode ser considerado, sendo incluídos, mais recentemente, os análogos de GLP-1, que atuam promovendo saciedade, reduzindo o esvaziamento gástrico, modulando a secreção de insulina e glucagon e contribuindo para a melhora do perfil metabólico. No entanto, seu uso ainda requer cautela, especialmente na medicina veterinária, devido à necessidade de mais evidências científicas sobre segurança e eficácia.

Conclusão

Em síntese, a obesidade canina é uma doença complexa, multifatorial e de grande impacto clínico, exigindo abordagem integrada que envolva aspectos metabólicos, comportamentais e ambientais. O sucesso do tratamento depende, em grande parte, da adesão do proprietário e da implementação consistente de estratégias de prevenção e manejo a longo prazo.

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