Novas definições para obesidade em cães e gatos
Saiba como essas novas definições contribuem para uma melhor compreensão e abordagem clínica dessa condição multifatorial.
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Escrito por
Prof.ª Dra. Stephanie de Souza Theodoro
Docente da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos
Introdução
A obesidade em cães e gatos é uma das principais enfermidades nutricionais da clínica de pequenos animais, com prevalência crescente e impacto direto sobre a saúde, longevidade e qualidade de vida. Em populações urbanas brasileiras, Porsani et al. (2020)¹ demonstraram que aproximadamente 40% dos cães apresentam sobrepeso ou obesidade, evidenciando sua relevância clínica.
Tradicionalmente definida como o acúmulo excessivo de tecido adiposo decorrente de balanço energético positivo², essa abordagem não contempla a complexidade atual da doença, que envolve alterações metabólicas, inflamatórias, endócrinas e fatores ambientais³.
Nesse contexto, a obesidade deve ser compreendida como uma condição multifatorial, associada à interação entre metabolismo, microbiota intestinal e estilo de vida, frequentemente acompanhada por inflamação crônica de baixo grau e alterações na homeostase metabólica³.
O problema das definições tradicionais da obesidade em cães e gatos
Na prática clínica, a obesidade em cães e gatos é diagnosticada predominantemente por meio do escore de condição corporal (ECC), ferramenta amplamente adotada por sua praticidade, baixo custo e boa correlação com a adiposidade corporal. O ECC, especialmente na escala de 9 pontos proposta por Laflamme (1997)⁴ e recomendada internacionalmente, permanece como o método mais utilizado na rotina veterinária⁵.
Entretanto, apesar de sua utilidade, o ECC apresenta limitações importantes. Trata-se de uma avaliação subjetiva, dependente da experiência do avaliador, e incapaz de distinguir alterações na composição corporal, como a redução de massa magra frequentemente observada em animais obesos ou durante programas de perda de peso. Assim, sua utilização isolada pode mascarar alterações metabólicas relevantes e comprometer a avaliação do estado nutricional.
Além disso, a percepção do responsável representa um fator crítico frequentemente negligenciado. Estudos indicam que cerca de 27% dos proprietários subestimam o escore corporal de seus animais, dificultando o reconhecimento precoce do excesso de peso e a adesão ao tratamento⁶.
Por fim, animais classificados na mesma categoria de ECC podem apresentar diferentes graus de adiposidade e perfis metabólicos distintos, reforçando que essa abordagem é insuficiente para capturar a heterogeneidade da obesidade enquanto doença multifatorial.
Obesidade não é uma condição única: a importância da classificação
Assim como na medicina humana, a obesidade em cães e gatos deve ser compreendida como um espectro clínico, e sua classificação por grau de adiposidade torna-se relevante para o diagnóstico e o manejo clínico.
Animais com mais de 40% de excesso de peso — caracterizados como obesidade de maior severidade (classe II) — apresentam pior resposta ao tratamento, menor taxa de sucesso em programas de emagrecimento e maior perda de massa magra durante o processo⁷.
Esses achados reforçam que o grau de adiposidade influencia diretamente o prognóstico e a abordagem terapêutica, destacando a necessidade de estratégias mais individualizadas no manejo desses pacientes.
Classificação da obesidade em cães em gatos: Classe I e II
O tecido adiposo como órgão metabólico
A compreensão atual da obesidade reconhece o tecido adiposo não apenas como um reservatório energético, mas como um órgão metabolicamente ativo, capaz de secretar adipocinas e citocinas pró-inflamatórias. O acúmulo excessivo de gordura corporal está associado ao desenvolvimento de um estado de inflamação crônica de baixo grau, com repercussões sistêmicas relevantes³.
Esse estado inflamatório está diretamente relacionado a alterações na sensibilidade à insulina, disfunções hormonais e maior risco de comorbidades, incluindo doenças ortopédicas, metabólicas e cardiovasculares⁸.
Dessa forma, a obesidade deve ser compreendida não apenas como um excesso de energia armazenada, mas como uma condição fisiopatológica ativa, com impacto direto sobre a homeostase metabólica do organismo.
Nutrição, digestibilidade e microbiota: uma nova fronteira
A composição da dieta, associada ao grau de processamento dos alimentos, influencia diretamente a digestibilidade dos nutrientes e a quantidade e qualidade dos substratos que alcançam o intestino grosso. Em especial, alterações no metabolismo proteico, incluindo o perfil de aminoácidos livres e a formação de compostos derivados do processamento térmico, podem modificar a fermentação microbiana e a produção de metabólitos bioativos⁸.
Esses metabólitos desempenham papel central na modulação do ambiente intestinal, podendo influenciar tanto a composição da microbiota quanto parâmetros metabólicos do hospedeiro. Evidências recentes indicam, ainda, que a microbiota intestinal pode participar ativamente da regulação do metabolismo energético, da inflamação e da homeostase metabólica³.
Assim, a obesidade deve ser interpretada não apenas como consequência de um balanço energético positivo, mas como um fenômeno complexo que envolve a interação dinâmica entre dieta, metabolismo intestinal e hospedeiro.
Interação entre composição da dieta, microbioma e saúde do animal.
O papel do ambiente e do responsável
A obesidade em animais de companhia não pode ser separada do ambiente em que o animal está inserido. Fatores como frequência alimentar, oferta de petiscos, nível de atividade física e o próprio padrão alimentar dos responsáveis estão diretamente associados ao desenvolvimento da doença¹.
Além disso, aspectos comportamentais e de percepção também desempenham papel relevante, uma vez que a relação responsável–animal pode influenciar tanto o manejo alimentar quanto o reconhecimento do excesso de peso.
Esse conjunto de fatores reforça que a obesidade deve ser compreendida como uma condição multifatorial, influenciada não apenas por mecanismos biológicos, mas também por componentes ambientais, sociais e comportamentais.
Uma nova definição para a obesidade em cães e gatos
Diante dessas evidências, propõe-se que a obesidade em cães e gatos seja redefinida como:
“Uma condição metabólica multifatorial caracterizada pelo acúmulo de tecido adiposo associado a alterações funcionais sistêmicas, incluindo inflamação crônica, disfunção metabólica e modificações na interação entre dieta, microbioma intestinal e hospedeiro, com impacto variável conforme o grau de adiposidade.”
Essa definição amplia o conceito tradicional ao incorporar:
- a dimensão metabólica
- a heterogeneidade clínica
- o papel do microbioma
- a influência do ambiente
Implicações para a prática clínica
A redefinição da obesidade impõe mudanças importantes na abordagem clínica. O diagnóstico deve evoluir de uma avaliação baseada exclusivamente no ECC para uma análise mais abrangente, que inclua, sempre que possível, a composição corporal, o estado metabólico e o histórico nutricional do paciente⁵.
Nesse contexto, a avaliação nutricional periódica torna-se uma ferramenta essencial, permitindo identificar precocemente alterações no peso e orientar intervenções mais assertivas ao longo do tempo.
Além disso, as estratégias nutricionais devem ir além da simples restrição calórica. A escolha dos ingredientes, o perfil nutricional da dieta e o grau de processamento dos alimentos devem ser considerados, uma vez que influenciam diretamente a digestibilidade dos nutrientes, o metabolismo intestinal e o microbioma⁸.
Na prática, isso significa que o manejo da obesidade deve ser individualizado, integrando nutrição, ambiente e comportamento, com foco não apenas na perda de peso, mas na melhora global da saúde metabólica do paciente.
Conclusão
A obesidade em cães e gatos deve ser compreendida como uma doença sistêmica complexa, resultante da interação entre metabolismo, inflamação, microbiota e ambiente. A superação de uma definição centrada apenas na adiposidade permite uma compreensão mais ampla da doença e o desenvolvimento de abordagens clínicas mais precisas. Nesse contexto, o manejo deve ir além da restrição calórica, incorporando avaliação metabólica e estratégias nutricionais individualizadas, com foco na saúde intestinal e no equilíbrio metabólico. Assim, a obesidade passa a ser reconhecida como uma condição multifatorial que exige uma abordagem integrada e baseada em evidências.
Referências Bibliográficas
1. Porsani, M.Y.H.; Teixeira, F.A.; Oliveira, V.V.; Pedrinelli, V.; Dias, R.A.; German, A.J.; Brunetto, M.A. Prevalence of Canine Obesity in the City of São Paulo, Brazil. Sci. Rep. 2020, 10, 1–15, doi:10.1038/s41598-020-70937-8.
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3. Vecchiato, C.G.; Golinelli, S.; Pinna, C.; Pilla, R.; Suchodolski, J.S.; Tvarijonaviciute, A.; Rubio, C.P.; Dorato, E.; Delsante, C.; Stefanelli, C.; et al. Fecal Microbiota and Inflammatory and Antioxidant Status of Obese and Lean Dogs, and the Effect of Caloric Restriction. Front. Microbiol. 2023, 13, doi:10.3389/fmicb.2022.1050474.
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6. Blanchard, T.; Hoummady, S.; Banuls, D.; Roche, M.; Bynens, A.; Meunier, M.; Dos Santos, N.; Tissaoui, E.; Rouch-Buck, P.; Fantinati, M.; et al. The Perception of the Body Condition of Cats and Dogs by French Pet Owners and the Factors Influencing Underestimation. Animals 2023, 13, 3646, doi:10.3390/ani13233646.
7. Broome, H.A.O.; Woods-Lee, G.R.T.; Flanagan, J.; Biourge, V.; German, A.J. Weight Loss Outcomes Are Generally Worse for Dogs and Cats with Class II Obesity, Defined as > 40% Overweight. Sci. Rep. 2023, 13, 22958, doi:10.1038/s41598-023-50197-y.
8. Phungviwatnikul, T.; Lee, A.H.; Belchik, S.E.; Suchodolski, J.S.; Swanson, K.S. Weight Loss and High-Protein, High-Fiber Diet Consumption Impact Blood Metabolite Profiles, Body Composition, Voluntary Physical Activity, Fecal Microbiota, and Fecal Metabolites of Adult Dogs. J. Anim. Sci. 2022, 100, doi:10.1093/jas/skab379.



