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Sódio para cães: faz mal?

Descubra os efeitos da ingestão de sódio para cães e quais as recomendações atuais para pacientes cardiopatas.

Publicado em 06 de março, 2026
Cachorro se alimentando.

O sódio é um nutriente essencial para cães, ou seja, deve ser ingerido na dieta para atender a sua necessidade mínima, evitando a sua deficiência. É um eletrólito essencial para a regulação do equilíbrio hídrico, função neuromuscular e pressão osmótica celular. A deficiência de sódio pode causar uma série de manifestações clínicas, como: letargia, fraqueza, desorientação, vômito, diarreia, hiporexia, ataxia, tremores e em casos graves, até convulsões, hipotermia e coma. A diminuição do sódio sérico leva à movimentação de água para dentro das células (inclusive neurônios), causando edema cerebral, que é responsável por muitos dos sinais neurológicos observados (DI BARTOLA, 2012). A ingestão mínima diária de sódio recomendada para cães pela FEDIAF (2025) é de 25 mg/100 Kcal de alimento.

Ingestão de sódio por cães saudáveis

Os primeiros estudos com dietas com baixo sódio em cães hígidos não mostraram alterações significativas na quantidade de líquido extracelular e concentrações séricas de sódio e cloreto, comparado com os cães que receberam dieta com altos níveis de sódio (PENSINGER, 1964; HAMLIN et al., 1964; MORRIS et al., 1976). Cães saudáveis são capazes de manter o balanço de sódio e potássio tanto em dietas com baixos níveis quanto em dietas com altos níveis de sódio (PENSINGER, 1964).

Doença mixomatosa valvar mitral

Cães com doença mixomatosa valvar mitral (DMVM) assintomáticos e não tratados (estágio B1) apresentam grande aumento da atividade plasmática de renina e da concentração plasmática de aldosterona, e diminuição da atividade da ECA quando se realiza a mudança para uma dieta com baixo sódio (PEDERSEN, 1996). Pensinger (1964) mostrou com seu estudo que cães com doença cardíaca sem ICC eram capazes de manter o balanço de sódio e potássio quando submetidos tanto à dieta de baixo quanto à dieta de alto nível de sódio, assim como os cães sadios. Um estudo mais recente, também com cães nos estágios iniciais da DMVM (estágios B1 e B2), obteve resultados semelhantes: quando os cães receberem uma dieta com redução severa de sódio (32 mg de sódio/100 Kcal de alimento), os níveis de aldosterona aumentavam, devido a ativação neuroendócrina, e quando esta dieta era trocada por dietas com níveis mais elevados de sódio (62 mg/100 Kcal e 151 mg/100 Kcal de alimento) houve diminuição nos níveis de aldosterona, sendo que, a aldosterona apresentou maior redução no grupo da dieta que apresentava conteúdo maior de sódio (151 mg/100 kcal) (FREEMAN et al., 2006). Cães com doença cardíaca assintomáticos que recebem dieta com redução severa de sódio tem aumento das concentrações de aldosterona e da frequência cardíaca, e a diminuição severa de sódio não apresenta efeito benéfico sobre o tamanho e função cardíaca no exame ecocardiográfico (FREEMAN et al., 2006).

A restrição severa de sódio em cães com doença cardíaca assintomáticos tem um potencial efeito prejudicial devido à precoce e excessiva ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) (PEDERSEN et al., 1994 a; PEDERSEN et al., 1994 b; KOCH et al., 1994; PEDERSEN, 1996; FREEMAN et al., 2006). Entretanto, ainda não foi comprovado que essa ativação pela restrição de sódio cause efeitos deletérios em longo prazo, em cães com doença cardíaca. A ativação neuroendócrina precoce pode não ser desejável, sendo preferível uma restrição moderada de sódio nos estágios iniciais da insuficiência cardíaca (FREEMAN et al., 2006).

 

Insuficiência cardíaca congestiva

Já os cães com doença cardíaca e ICC respondem de forma diferente à redução dietética de sódio do que cães sadios ou em estágios iniciais de doenças cardíacas (FREEMAN; RUSH, 2007). Diferentemente dos cães sadios, que mantém as concentrações séricas de sódio e cloreto independentemente das suas concentrações dietéticas, o sódio e cloreto diminuem significantemente em cães com insuficiência cardíaca alimentados com dieta com baixo sódio (RUSH et al., 2000). Isso ocorre, pois cães cardiopatas com ICC retêm sódio quando alimentados com dietas com altos níveis de sódio, devido ao SRAA estar bastante ativado (PENSINGER, 1964). Em 2000, Rush e colaboradores realizaram um estudo clínico randomizado, duplo-cego, placebo-controle, com cães com DMVM ou cardiomiopatia dilatada (CMD), com insuficiência cardíaca. Metade dos cães recebeu uma dieta com restrição severa de sódio (RSS) e a outra metade recebeu uma dieta com restrição moderada de sódio (RMS), durante 28 dias. Os resultados do estudo mostram que o sódio e cloreto sérico diminuem significantemente em cães que comem dieta com RSS comparados com a dieta com RMS, sendo que 5 dos 14 cães apresentaram hiponatremia durante o período que foram alimentados com a dieta com RSS. Os efeitos em longo prazo de dietas com baixo sódio para cães cardiopatas com ICC, como aumento de sobrevida e qualidade de vida, ainda não foram demonstrados (RUSH et al., 2000), pois os estudos até então só avaliaram os efeitos da dieta com baixo sódio a curto prazo (no máximo um a dois meses).

Nos anos 60, havia poucos medicamentos disponíveis (como a furosemida e digoxina) para o tratamento da insuficiência cardíaca congestiva (ICC), sendo a redução da ingestão dietética de sódio um dos poucos métodos para reduzir a congestão (FREEMAN; RUSH, 2007). Naquele cenário, uma diminuição significativa de sódio na dieta era claramente benéfica, ajudando a reduzir as manifestações clínicas da ICC (FREEMAN; RUSH, 2007). Com o passar dos anos, novos fármacos foram adicionados às opções para tratamento da ICC em cães, como os inibidores da enzima de conversão da angiotensina (iECAs), inodilatadores (pimobendan), antagonistas da aldosterona (espironolactona), diuréticos tiazídicos (hidroclorotiazida), vasodilatadores (anlodipino e isossorbida), diuréticos de alça mais potentes do que a furosemida (como a torsemida), entre outros. Atualmente, a redução de sódio na dieta, associada ao leque de opções farmacológicas, é um método de controle do aumento de pré-carga em pacientes com ICC. Sendo uma recomendação comum a diminuição de sódio dietético em animais com ICC para reduzir a retenção de líquido, apesar de que, até o presente momento não se sabe qual é a dose ótima de sódio e o momento ideal para instituir os vários níveis de restrição (TORIN et al., 2007).

Recomendações para cães com doenças cardíacas

As recomendações adotadas atualmente de restrição de sódio para cães com doenças cardíacas estão descritas na tabela 1.

Tabela 1: Recomendações dietéticas de sódio de acordo com os estágios da Doença Mixomatosa Valvar Mitral (DMVM) segundo a classificação do American College of Veterinary Internal Medicine (ACVIM).

Estágio Recomendação de Sódio
A Pacientes pertencentes a raças predispostas a desenvolver DMVM, que não apresentam alterações cardíacas estruturais. Nenhum tipo de redução de sódio é recomendado
B1 Cães com alterações cardíacas estruturais (degeneração valvar, insuficiência valvar), assintomáticos e que não há indicação de tratamento medicamentoso (cães sem remodelamento cardíaco ou com remodelamento atrial discreto). Redução discreta de sódio na dieta: 80 a 100 mg/100 kcal do alimento
B2 Cães com alterações cardíacas estruturais (degeneração valvar, insuficiência valvar), assintomáticos e que existe indicação de tratamento medicamentoso (cães com remodelamento de átrio e ventrículo, que apresentam no ecocardiograma relação AE/Ao > 1,6 e DIVEdN > 1,7). Redução moderada de sódio na dieta: 50 a 80 mg/100 kcal do alimento
C Animais com manifestações clínicas passadas ou atuais de insuficiência cardíaca, associadas à doença cardíaca estrutural. Redução severa de sódio na dieta: 25 a 50 mg/100 kcal do alimento

 

D Pacientes no estágio final da doença, com manifestações clínicas de insuficiência cardíaca causadas por doença valvar mixomatosa e que são refratários à terapia convencional. Redução severa de sódio na dieta: 25 a 50 mg/100 kcal do alimento

 

Fonte: adaptado de GOMES; DUARTE, 2020.

Além da indicação da dieta, o tutor precisa receber instruções cuidadosas quanto aos petiscos e às formas de administração de medicamentos. Em alguns casos, os animais podem receber a dieta adequada, mas ingerir grandes quantidades de sódio a partir destes alimentos (FREEMAN, 2009).

Referências Bibliográficas

  • DI BARTOLA, S. P. Fluid, Electrolyte, and Acid-Base Disorders in Small Animal Practice (4th ed.). Elsevier, 2012.

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